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Ocultismo contemporâneo
Alguém se lembra das antigas bruxas? Narigudas, maquiavélicas, insensíveis, de riso estridente e aparência amedrontadora? Elas continuam as mesmas, mas os seus cabelos... narizes e vestuário apresentam muita diferença! Já não voam em vassouras, muito menos vivem ao redor de caldeirões fervilhantes. A caça às criancinhas perdidas em florestas acabou. Hoje, conquistá-las é bem mais fácil. A lenda dos aprisionamentos em porões escuros, onde meninos e meninas recebiam uma dieta para que engordassem e fossem servidos nos banquetes das “velhas malvadas” também sofreu atualizações. Agora, o prato predileto do “ocultismo contemporâneo” tem sido “cérebros suculentos”, mentes ávidas pelo que é desconhecido e cada vez mais bonito e tecnologicamente atraente. Em lugar dos ambientes sinistros estão as salas de estar, quartos, cinemas, lan houses etc. A fantasia continua sendo a principal matéria-prima. O mundo encantado do ocultismo tem entradas múltiplas. Internet, televisão, jornais, revistas, livros, videogames e etc. estendem tapetes vermelhos em saudação aos novos simpatizantes. Tudo é colocado à disposição da humanidade como se fossem árvores repletas do fruto proibido. E, infelizmente, o caminho mais atrativo para a sociedade tem sido o das curvas sinuosas da serpente. A metáfora é romantizada e envolvente como um conto de fadas, porém nem sempre acaba com final feliz. Assim como as sutilezas de uma crônica, o ocultismo tem minado mentes de crianças e adultos, utilizando a arte como instrumento de persuasão e criação de identidade. Para o mundo secular, o ocultismo é fascinante. Definido como o conjunto de sistemas filosóficos e artes misteriosas associadas a conhecimentos secretos, ganha cada vez mais adeptos entre as sociedades intelectualizadas. Já a igreja caracteriza como ocultista toda seita ou religião cujas práticas incluam previsões futurísticas, comunicação com os mortos ou segredos instigantes. O que à luz da Palavra é abominável, para a sociedade é atraente. O mal já não parece ser tão mau assim. O oculto já não repele, mas atrai as massas. Qual a explicação para o sucesso de vendas da série Harry Potter, livros com mais de 600 páginas disputado por crianças em todo o mundo com lançamento em data e hora marcada? O que faz de Paulo Coelho ser o autor mais lido em todo o planeta? Por que o místico, secreto ou esotérico compõem as categorias campeãs entre os best-sellers? Marketing e publicidade, certamente, têm sua parcela de contribuição. No entanto, para Sérgio Carneiro, cristão, publicitário, pós-graduado em Comunicação e professor universitário, o ocultismo é tema atrativo por si só. “Em menor ou maior grau, o oculto sempre fez parte da história humana, e a propaganda, atenta a tudo o que atrai a atenção dos homens, vale-se desse interesse coletivo para divulgar seus produtos”. Carneiro enfatiza que, de certa forma, foi o desejo de conhecer o que era secreto que motivou Adão e Eva no jardim do Éden a comerem do fruto proibido. Eles desejavam conhecer o que não sabiam, estavam instigados pela idéia de que poderiam descobrir um grande segredo. E essa “curiosidade” percorre as sensações humanas até hoje. “O ocultismo, sob esta perspectiva, é apenas mais uma isca da propaganda para atrair o interesse das pessoas.” De acordo com o pastor Luís E. Peixoto, escritor, professor de Teologia e conferencista internacional, a áurea nebulosa do místico é o que fascina a inteligência do homem. “O fato de existir dentro do ser humano um vazio que só pode ser preenchido pelo amor e graça de Deus, o leva a buscar respostas contínuas para a existência humana. De onde vim? Quem sou? O que faço aqui? Para onde vou?”. Além disso, ele acredita que as forças ocultas do mal acentuam, ainda mais, esta procura. Alguns cristãos atribuem os comentários sobre o ocultismo e seus derivados como exageros, divagações e teorias irrelevantes, uma vez que o diabo é tão aceito que não necessita mais do subliminar para atingir o povo. Entretanto, outros percebem os detalhes de manifestações e mensagens ocultas que, para a maioria das pessoas, passam despercebidos. O escritor Daniel Mastral, 40 anos, autor de Voz do que Clama no Deserto, aliciado pelo satanismo dos 17 aos 25 anos, chama a atenção até mesmo para o horário em que passam as novelas da Rede Globo, cujas cenas têm doses homeopáticas e fortes de ocultismo. Mastral aponta o seguinte raciocínio: “Deus falava com o homem na virada do dia. No calendário judaico contava-se o tempo a partir do pôr do sol. Jesus foi crucificado na hora sexta e ficou até a hora nona. Ou seja, do meio-dia até as três da tarde. Então, o fim deste dia era quando o sol se punha, às 18hs. Nesse horário, tem início a noite; as trevas. E as novelas que abordam temas ocultistas começam às 18h. ‘Vampi’, ‘Iemanjá’, ‘Almas Gêmeas’, ‘O Profeta’ e, agora, ‘Eterna Magia’. Será tudo isso acaso?” Para o pastor João Souza Filho, autor de 21 livros, quatro deles tratando sobre ocultismo e mundo espiritual, é bem possível que o autor de uma novela que trate de Wicca ou bruxaria, como é o caso da atual novela das 18h, não tenha por objetivo divulgar uma crença. É possível que esteja apenas trabalhando um tema que fascina a todos: bruxaria e mística. “Muitos dos temas trabalhados em programas de TV, como agouros, prognósticos, horóscopos, etc. são apenas temas que o povo gosta de explorar e sente-se curioso em conhecer. Por isso, são apresentados pela mídia televisiva”. O subliminar e o místico estão aí. O oculto transformou-se em um campo profissional explorado e extremamente rentável. Segundo Roberto C. P. Júnior, espiritualista, escritor e mestre em ciências, “em apenas um ano de trabalho, um esotérico pode ganhar em média quatro mil dólares por mês sem sair de casa. As franquias de lojas e centros de práticas esotéricas se multiplicam sem parar. Videntes já atendem pela Internet, oferecendo por e-mail previsões e consultas com o tarô; e inúmeros serviços esotéricos por telefone prometem até mesmo limpeza de aura à distância”. Há quem diga que a televisão é uma fábrica de sonhos. Não há barreiras para a imaginação. Existem aqueles que deixam o mundo virtual se tornar real, pois, como passam muito tempo em frente à TV, perdem o senso crítico para distinguir entre a verdade e a utopia. As crianças são as mais afetadas. Só que nem mesmo os adultos escapam da influência. Um bom exemplo do tempo gasto diante da “telinha” são os dados do Fundo das Nações Unidas para a Criança (Unicef). A pesquisa aponta que crianças e jovens passam, em média, quatro horas assistindo à TV. Tempo maior ao que dedicam à escola. Muita informação é apresentada à população nesse período de exposição. E o ocultismo está na lista das atrações. A Rede Globo de Televisão, por exemplo, lançou no mês de maio a sua terceira novela, em menos de um ano e meio, com esta temática. “Eterna Magia” mescla bruxaria, reencarnação e ritos pagãos, e vem causando perplexidade entre evangélicos. O primeiro a se pronunciar foi o reverendo Wildo Gomes (Igreja Missão e Vida em Anápolis, GO), que utilizou a Internet para defender sua idéia. Ele criou um manifesto que rapidamente se difundiu na rede e, em seu texto, propõe um boicote à emissora. Wildo critica, por exemplo, as novelas da Globo que apresentam a prostituição, o homossexualismo e a feitiçaria como algo normal. “Há cerca de três anos, realizamos um protesto semelhante, quando três novelas com conteúdo espírita e cenas de homossexualismo eram transmitidas simultaneamente”. Até mesmo a cobertura jornalística da visita do líder da Igreja Católica, papa Bento XV, foi duramente criticada por ele. O reverendo acredita que a emissora, enquanto concessão pública, deu uma abertura muito grande ao pontífice, coisa que, em sua opinião, não acontece com os evangélicos.
O folhetim “Eterna Magia”, da autora Elizabete Gim, transmitido no horário de seis horas da noite cujo elenco compôs estrelas como Malu Mader e Thiago Lacerda. Sucede o remake de Ivani Ribeiro “O Profeta”, novela que terminou com picos de 33 pontos no Ibope – normalmente a audiência alcançada pela novela das 21h –, sendo o quarto programa mais assistido por crianças na Globo. Antes de “Eterna Magia” e “O Profeta”, o folhetim espírita “Alma Gêmea” apimentou o horário, mostrando a história de uma alma penada em busca de seu amor. Saiu de cena o vidente e entrou o bruxinho. A fórmula dessas tramas são sempre as mesmas: magia, reencarnação, ocultismo e efeitos especiais com pitadas de uma história de amor mal resolvida para cativar as donas de casa. No primeiro capítulo de “Eterna Magia”, o escritor Paulo Coelho fez uma breve participação. Na condição de narrador, ele apresentou os personagens que residem em uma cidade fictícia, no interior de Minas Gerais, chamada Serranias. Dentre os imigrantes, as duas irmãs, Eva (Malu Mader) e Mariana (Maria Flor) Sullivan vão disputar Conrado (Thiago Lacerda). As irmãs são seguidoras de ritos pagãos celtas relacionados a bruxarias. Já no capítulo de estréia, a audiência oscilou entre 28 pontos, com apenas 43% dos televisores ligados – índice considerado baixo para o horário. Com o passar das semanas, lançando mão de muita bruxaria e cenas de feitiçaria, o ibope foi crescendo. Mexer com o oculto é quase sempre uma estratégia que vende bem. Não é a primeira vez que novelas com ênfase espírita são veiculadas para cativar o público. Em 1994, “A Viagem”, também de Ivani Ribeiro, foi exibida e, em 2006, reprisada, mantendo o mesmo índice de aceitação. “Se não desse audiência, a emissora já tinha tirado do ar. O público se interessa pela riqueza de informações. A crença é algo sagrado para o ser humano”, justifica o escritor espírita Paulo Rossi Severino. Ele já deu consultoria a programas da Globo e concorda com o ator Marcos Caruso que, em entrevista ao jornal Folha Espírita, afirmou que falar dos espíritos é uma tendência da dramaturgia. Para o jornalista Fernando de Barros, a declaração de Marcos Caruso é infeliz, no entanto, verdadeira. Em sua opinião, como a televisão vive de audiência, esses tipos de tema ajudam, em muito, a alavancá-la. “As pessoas estão buscando sempre um consolo quando perdem seus entes queridos e não têm a fé em Jesus Cristo”, explica. Ele acredita que esses movimentos de boicote contra a TV não surtem efeito. O melhor, na sua visão, seria fazer um trabalho de esclarecimento com o público, nas igrejas mesmo, mostrando que nem tudo o que se vê é a verdade. A mesma opinião é compartilhada pelo conferencista e pastor da Igreja Metodista Wesleyana, Silmar Coelho. “A TV tem função de informar, educar e divertir. Apesar de a TV brasileira ser, profissionalmente, uma das melhores do mundo, a sede pelo poder, dinheiro e audiência tem levado muitos a negociar por baixo os princípios que seus fundadores defendiam ao iniciá-la”. Até mesmo os canais pagos se renderam ao tema. Proliferam séries utilizando o sobrenatural para chamar a atenção. A mais comentada é a série “Médium”, exibida pelo canal Warner. A conseqüência de manifestações de ocultismo em variados veículos e artes só serão sentidas daqui a algum tempo. O efeito pode criar em todo o Brasil uma população cada vez mais pagã e sincrética. Para a Bíblia, esses sintomas simbolizam o fim dos tempos. Para o mundo, uma nova era. Diante disso, é premente gerenciar pensamentos e emoções, aperfeiçoar o senso crítico e andar muito bem acompanhado, seja de bons amigos, livros, programas, filmes e da própria Bíblia.
Oziel Alves
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